quinta-feira, 29 de junho de 2017


Tu, que não conheço ainda, ou imagino que não conheço, ajuda-me a ficar

Ocupo pouco espaço, quase não faço barulho, nunca grito, não incomodo ninguém. 

Leva-me contigo e ajuda-me a ficar.

Tenho a ternura simples mas aos nós. 

Como as tuas unhas são mais compridas do que as minhas desata-me isto tudo. 

Mãos impregnadas de nuvens, ossos suaves como o leite,vagarosos, certeiros.

 É bom nascer no instante em que o ar é mais frio do que a água.

Trouxe-o aqui no bolso para ti. 

Há-de haver, nalgum sítio, a minha última casa.





António Lobo Antunes

quarta-feira, 28 de junho de 2017


procurar o lugar que se esquiva, habituar-me à contínua fuga do mundo,

permitir em mim o sítio onde a palavra se apagou, repousar nele como quem encontra a serenidade na desolação,

perder, perder cada vez mais até ao indizível, não falar, não escrever, para enfim recomeçar:

a estrada é a espera de um nome.




Rui Nunes

domingo, 25 de junho de 2017


E por fim chega uma altura em que uma pessoa pergunta: "que raio fiz eu?"(…)

Grande parte da vida é tão chata que nem merece discussão, e é chata em todas as idades. 

Quando mudamos de marca de cigarro, nos mudamos para um novo bairro, assinamos um novo jornal, nos apaixonamos e desapaixonamos, estamos a protestar, de modos ao mesmo tempo frívolos e profundos, contra a maçada que nunca se dissolve da vida de todos os dias. 

Infelizmente, um espelho é tão traiçoeiro quanto outro, e a dado momento reflete em cada aventura o mesmo rosto insatisfeito, então quando ela pergunta que raio fiz eu?, na verdade quer dizer o que é que eu estou a fazer?, que é o que habitualmente se diz.




Truman Capote

- Por que é que julgas que eu nunca choro? 

- Tu não morres o suficiente para poder chorar. 



Jack Kerouac

sexta-feira, 23 de junho de 2017



E agora eu sou os meus sapatos. 

Tenho um par de sapatos dentro de mim. 

Um dois, dois um... sapatos dentro de mim.

Era uma vez eu dentro de uns sapatos, fora e dentro de mim.

Era uma vez duas de mim – uma sentindo este ruído na pele como peixe monstruoso, a outra, sentada, observando os sapatos,usurpando aconchego à cadeira. 

Distraem, prudentes, os sapatos,dançam em meus pés de sabão, evadindo-se de um funeral descalço; brincam, perversos, em voo contrário à amputação; movem-se sedutores, como gatos invisíveis, furtando-me a audição.

Oiço-me no vulto das frases, surda do outro.

Era uma vez eu dentro de mim. 

Era uma vez os meus sapatos.



Ana Marques Gastão

Quero que se foda o sublime. 

A minuciosa construção do absoluto literário. 
Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exato. 

Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). 

Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso.

 Quero que se foda o sublime. 

Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. 
Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.





Jorge Roque

quinta-feira, 22 de junho de 2017


E tem a noite nos olhos, a jovem morena, 
e a noite às costas, como uma capa.


Ele corta com violência as cordas, primeiro a dos pés, depois a das mãos quentes com um impaciente sangue. E para terminar solta-lhe o peito. 
Sente bater nos dedos o primeiro sopro, como uma onda na margem.



E treme.





Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 21 de junho de 2017


Deixas rasto no meu peito durante horas. 
Dou com cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. 
Procuro-te nas esquinas dos instantes que passam. 
Reconheço-te no vinco que a ternura deixa na carne do peito, do meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina, de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente teu, igualmente meu, reflectido na montra de uma loja do nosso sono. 
Deslizo. 
Deito-me sobre as lembranças. 
(...)
 E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias me traçam na pele. 
E depois na presença eu ... presença tu...





Mia Couto

domingo, 18 de junho de 2017


Havia, enquanto recordava, 
uma pequena ferida na sua voz: 

em nenhum lugar achara ainda o nome da sua casa.




Maria do Rosário Pedreira

estes são os nomes das coisas que deixaste


lê, estes são os nomes das coisas que deixaste 

– eu, livros, o teu perfume espalhado pelo quarto; sonhos pela metade e dor em dobro, beijos por todo o corpo 

como cortes profundos que nunca vão sarar;




Maria do Rosario Pedreira

"Comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. 
Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto? 
A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor - como se chama?
 Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?"






Clarice Lispector

sexta-feira, 16 de junho de 2017


"pára de chorar


carrega no batom 


abusa do verniz 


põe os pontos nos Is"






Rui Veloso

quinta-feira, 15 de junho de 2017


para onde estamos indo?

estamos indo sempre para casa 

...




Raduan Nassar

O que te direi?

Te direi os instantes.

Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril.

Que febre: conseguirei um dia parar de viver?

Ai de mim que tanto morro.

Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas.

À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa.

Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. 







Clarice Lispector

quarta-feira, 14 de junho de 2017


não, 
não afastes a boca da minha orelha.

derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.

e eu digo:

- as tuas mãos queimam-me a fala.

tu sorris, dizes:

- vem , sem medo, pela aridez do meu corpo.

no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem.

 é tempo de te devolver. 

é tempo de te reconheceres nela.




Al Berto

terça-feira, 13 de junho de 2017


Estranha sensação a angústia: 

sente-se, no ritmo do coração, que se respira mal, como se se respirasse com o coração.





André Malraux

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi verdade - que não amei ninguém depois de ti nem o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio que não fosse a memória de um instante junto do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste por não suportar as palavras maiores longe da tua boca; e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa, acreditando que, se não me alimentasse, acabaria por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.

 Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti, bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente do que tinham e os vi partir desesperados a meio da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal, também eles não existiam para além de ti; e que no dia seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida. 

Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar que, em mãos assim, tão grandes para o afeto, o seu perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono.

 E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas, pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.





Maria do Rosário Pedreira

Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. 

Eu sou, eu sou, eu sou.



Sylvia Plath

domingo, 11 de junho de 2017


Tornamo-nos impermeáveis na solidão:

dentro da pele não viaja ninguém;

fora da pele ninguém nos vê passar.



Jesús Jiménez Domínguez

sábado, 10 de junho de 2017


não sei bem se continuo apaixonado, não sei bem se vale a pena continuar apaixonado por ti.

não sei. 

vejo-te e todo eu tremo. todo o meu corpo é um lamento, e pede socorro ao teu olhar, 
às tuas mãos. 

a um simples sorriso. 

uma palavra que me descanse. 



Al Berto

sexta-feira, 9 de junho de 2017


“Os homens dizem que a vida é curta, 

e eu vejo que eles se esforçam para

 a tornar assim.”




— Jean Jacques Rousseau

terça-feira, 6 de junho de 2017


Que o amor é como o mar: 

sendo infinito

espera ainda em outra água se completar...





(Mia Couto )

domingo, 4 de junho de 2017

Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém...


Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! 
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir corretamente e do medo de perder algo tão amado. 
Perder? Como? 
Não é nosso, recordam-se? 
Foi apenas um empréstimo.”




José Saramago

Sou a tua inocência.
Restaura a tua loucura.


Elizabeth Azcona Cranwell

Eu podia ter-te amado com outras palavras, 
com outro timbre de cristal. 
Mas ocultei a ternura nos bosques que se 
fecham sobre o coração. 

Morei no silêncio; apaguei as claras fontes 
de uma torturada voz. 
E o brilho da faca,
o seu metal de esplendoroso alcance,
encontrou o pulso e moveu-se, 
docemente




José Agostinho Baptista

Na boca reacendo uma navalha de lume para sufocar a solidão, 
e as palavras que já nada podem revelar, nem ajudar. 




Al Berto

quinta-feira, 1 de junho de 2017



Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


 Mario Quintana. 


‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...