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Mostrando postagens de 2017
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o meu relógio de amar parou em cima da mesa


Mário Cesariny
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é preciso, às vezes, não acordar o silêncio.



Albano Martins
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estava tudo depurado de vida,

isento, 

vazio de sinais, 
e depois disse para comigo: 

vou começar a escrever

para me curar da mentira de um amor que acaba. 




Marguerite Duras
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Promete ser pra sempre o meu menino Me deixar cantar pra te fazer dormir Que eu prometo que vou te cuidar pra sempre Eu te amo infinito Meu guri





Promete
Ana Vilela
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deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói.
 mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma 
latejam de dor.


Al Berto
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diz-me um segredo
mantém-me acordada
enquanto esta noite não chega ao fim



Dulce Maria Cardoso
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"
(...)
Meias verdades E muita insensatez
"


Flora Figueiredo
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não te aguardo. 
adio-me.



valter hugo mãe
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"Ingênuo era eu, que recebia marteladas e procurava melodia nas batidas".



Sean Wilhelm
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quanto anos se esgotaram na espera?
será que não explode um corpo?

Al Berto
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Por mim, é por isso que oculto as mãos.  Tenho-as todas queimadas




Herberto Helder
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"Promete que nunca me guardarás numa gaveta. 
Quer tenha ou não chave..."



Pedro Paixão
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Ando muito completo de vazios.

Meu órgão de morrer me predomia.

Estou sem eternidades.



Manoel de Barros
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Porque te dá um medo filho da puta: ser feliz, medo de amar, medo de ser bomTudo que faz bem pra gente, a gente tem medo.

Cazuza.
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Quase ninguém repara em ninguém. 

Em parte porque o espaço que nos circunda está cheio de chamadas, de perigos e de júbilos;

O ser humano, longe do que se pensa, é o que menos se nota no mundo.




Agustina Bessa-Luís
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O seu drama não era o drama do peso,  mas o da leveza.
O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.



Milan Kunder
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"Você tem que parar para mudar a direção."


Erich Fromm

PRECISA-SE

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nesta noite tu estás como anúncio
PRECISA-SE
na página gasta da minha pele


Vasco Gato
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Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono 
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender. 



Sophia de Mello Breyner Andresen,
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Amar-te é construir uma casa numa falésia e ainda assim sentir-me segura. 
Mas somos felizes.  Somos estupidamente felizes nessa beira de precipício.  Somos tão felizes com os nossos gatos, com o nosso sofá.  Temos dois gatos e um sofá e nada nos falta. 
Deem dois gatos e um sofá a quem se ama e estarão a dar-lhes o mundo.




Pedro Chagas Freitas
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As meninas armadas são as mais belas,
têm no coldre uma arma
lotada de munições, 
pronta a ser sacada em inúmeras situações. 
As meninas armadas não fazem rimas 
Dão tiros nos poemas
e mandam autopsiar o corpo para reaverem as balas 




Cláudia Lucas Chéu
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os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
a machucados nos dedos






Al Berto,
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Vou deitar-me outra vez no meu lugar e deixar o teu à tua espera. 

Vem de noite sem eu dar conta e acordar contigo ainda no teu sono

e tocar-te e seres tu. 




Vergílio Ferreira
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Esta noite preciso de outro verão  sobre a boca crescendo nem que seja de rastos.



Eugênio de Andrade,
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uma ferida
 PODE 
ser usada como arma 



Heiner Müller
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Faz de conta que ainda somos Quem nos escreveu!



O Teatro Mágico
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Os homens são uma parte pequena do mundo, e eu não compreendo os homens.
 Sei o que fazem e as razões imediatas do que fazem, mas saber isso é saber o que está à vista, é não saber nada. 
Penso: talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique.




José Luís Peixoto
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Tu, que não conheço ainda, ou imagino que não conheço, ajuda-me a ficar
Ocupo pouco espaço, quase não faço barulho, nunca grito, não incomodo ninguém. 
Leva-me contigo e ajuda-me a ficar.
Tenho a ternura simples mas aos nós. 
Como as tuas unhas são mais compridas do que as minhas desata-me isto tudo. 
Mãos impregnadas de nuvens, ossos suaves como o leite,vagarosos, certeiros.
 É bom nascer no instante em que o ar é mais frio do que a água.
Trouxe-o aqui no bolso para ti. 
Há-de haver, nalgum sítio, a minha última casa.




António Lobo Antunes
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procurar o lugar que se esquiva, habituar-me à contínua fuga do mundo,
permitir em mim o sítio onde a palavra se apagou, repousar nele como quem encontra a serenidade na desolação,
perder, perder cada vez mais até ao indizível, não falar, não escrever, para enfim recomeçar:
a estrada é a espera de um nome.



Rui Nunes
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E por fim chega uma altura em que uma pessoa pergunta: "que raio fiz eu?"(…)
Grande parte da vida é tão chata que nem merece discussão, e é chata em todas as idades. 
Quando mudamos de marca de cigarro, nos mudamos para um novo bairro, assinamos um novo jornal, nos apaixonamos e desapaixonamos, estamos a protestar, de modos ao mesmo tempo frívolos e profundos, contra a maçada que nunca se dissolve da vida de todos os dias. 
Infelizmente, um espelho é tão traiçoeiro quanto outro, e a dado momento reflete em cada aventura o mesmo rosto insatisfeito, então quando ela pergunta que raio fiz eu?, na verdade quer dizer o que é que eu estou a fazer?, que é o que habitualmente se diz.



Truman Capote
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- Por que é que julgas que eu nunca choro? 
- Tu não morres o suficiente para poder chorar. 


Jack Kerouac
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E agora eu sou os meus sapatos. 
Tenho um par de sapatos dentro de mim. 
Um dois, dois um... sapatos dentro de mim.
Era uma vez eu dentro de uns sapatos, fora e dentro de mim.
Era uma vez duas de mim – uma sentindo este ruído na pele como peixe monstruoso, a outra, sentada, observando os sapatos,usurpando aconchego à cadeira. 
Distraem, prudentes, os sapatos,dançam em meus pés de sabão, evadindo-se de um funeral descalço; brincam, perversos, em voo contrário à amputação; movem-se sedutores, como gatos invisíveis, furtando-me a audição.
Oiço-me no vulto das frases, surda do outro.
Era uma vez eu dentro de mim. 
Era uma vez os meus sapatos.


Ana Marques Gastão
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Quero que se foda o sublime. 

A minuciosa construção do absoluto literário.  Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exato. 

Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). 

Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso.

 Quero que se foda o sublime. 

Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo.  Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.




Jorge Roque
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E tem a noite nos olhos, a jovem morena,  e a noite às costas, como uma capa.

Ele corta com violência as cordas, primeiro a dos pés, depois a das mãos quentes com um impaciente sangue. E para terminar solta-lhe o peito.  Sente bater nos dedos o primeiro sopro, como uma onda na margem.


E treme.




Rainer Maria Rilke
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Deixas rasto no meu peito durante horas.  Dou com cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso. Encontro nos vincos mais longínquos dos meus dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel.  Procuro-te nas esquinas dos instantes que passam.  Reconheço-te no vinco que a ternura deixa na carne do peito, do meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina, de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente teu, igualmente meu, reflectido na montra de uma loja do nosso sono.  Deslizo.  Deito-me sobre as lembranças.  (...)  E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias me traçam na pele.  E depois na presença eu ... presença tu...




Mia Couto
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Havia, enquanto recordava,  uma pequena ferida na sua voz: 
em nenhum lugar achara ainda o nome da sua casa.



Maria do Rosário Pedreira

estes são os nomes das coisas que deixaste

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lê, estes são os nomes das coisas que deixaste 
– eu, livros, o teu perfume espalhado pelo quarto; sonhos pela metade e dor em dobro, beijos por todo o corpo 
como cortes profundos que nunca vão sarar;



Maria do Rosario Pedreira
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"Comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome.  Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto?  A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor - como se chama?  Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?"





Clarice Lispector
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"pára de chorar

carrega no batom 

abusa do verniz 

põe os pontos nos Is"





Rui Veloso
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para onde estamos indo?
estamos indo sempre para casa 

...



Raduan Nassar
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O que te direi?
Te direi os instantes.
Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril.
Que febre: conseguirei um dia parar de viver?
Ai de mim que tanto morro.
Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas.
À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa.
Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. 






Clarice Lispector
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não,  não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
e eu digo:
- as tuas mãos queimam-me a fala.
tu sorris, dizes:
- vem , sem medo, pela aridez do meu corpo.
no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem.
 é tempo de te devolver. 
é tempo de te reconheceres nela.



Al Berto
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Estranha sensação a angústia: 
sente-se, no ritmo do coração, que se respira mal, como se se respirasse com o coração.




André Malraux
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Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi verdade - que não amei ninguém depois de ti nem o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio que não fosse a memória de um instante junto do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste por não suportar as palavras maiores longe da tua boca; e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa, acreditando que, se não me alimentasse, acabaria por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.
 Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti, bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente do que tinham e os vi partir desesperados a meio da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal, também eles não existiam para além de ti; e que no dia seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado …