sábado, 29 de outubro de 2016

Caí no silêncio há vários dias.


Caí no silêncio há vários dias. 

Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. 

Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. 

Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.




Vasco Gato

“Temos dentro de nós, uma reserva insuspeita de força que surge quando a vida nos põe à prova…”

.

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Isabel Allende

quarta-feira, 26 de outubro de 2016


“Os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. Os instantes do teu sorriso eram eternos. Os instantes do teu corpo de luz eram eternos. Foste eterna até ao fim.”



José Luís Peixoto

terça-feira, 25 de outubro de 2016


por ahora las palabras son
marcas que los dedos dejan en la piel

cuando ya no hay restos de la voz en el habla
en el momento en que con lentitud
escribo el silencio en el cuerpo

como movimiento imperfecto de la respiración
acepto lágrimas 




maria sousa

segunda-feira, 24 de outubro de 2016


a distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido

eis a anatomia do silêncio



Teresa Balté

para morrer,
qualquer lugar,
qualquer corpo,
e qualquer boca me serve.



António Boto

Queimar tudo.


Queimar tudo. 

Alugar uma casa num lugar sem história 
na história da minha vida, um lugar de postais antigos, 
desbotados, e do passado guardar apenas uma urna
de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças. 

Ver filmes sem mérito, 
ler livros sem arte, ouvir óperas
cômicas e 'inêxitos' impopulares e anacrônicos. 

Tentar, 
sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe 
miúdo e roupas com defeitos às ciganas. 

Ser anônimo por fora e por dentro
criança que não se conhece
nem quer conhecer e que procura apenas o início
e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente
para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar 
os gloriosos fundos de um oceano de merda. 

Beber pouco. 

Foder com a moderação 
que a improbabilidade do diálogo impõe. 

Emular os pioneiros americanos, pecadores em busca de recomeço e horizonte
longe das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes
e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor. 




Miguel Martins (Desvão)

Às vezes, na estranha tentativa de nos defendermos da suposta visita da dor, soltamos os cães. 
Apagamos as luzes. 
Fechamos as cortinas. 
Trancamos as portas com chaves, cadeados e medos.
 Ficamos quietinhos, poucos movimentos, nesse lugar escuro e pouco arejado, pra vida não desconfiar que estamos em casa.

A encrenca é que, ao nos protegermos tanto da possibilidade da dor, acabamos nos protegendo também da possibilidade de lindas alegrias.

.


Ana Jácomo

domingo, 23 de outubro de 2016

Das manhãs



Apenas levarei a tua voz


Despovoada

Sem promessas
sem barcos
e sem casas


Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas


Da tua voz


Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas


As pedras
As nuvens
O teu canto


Levarei manhãs, E madrugadas





Daniel Faria

"Porque não estás aqui?"


"Porque não estás aqui?"

 Era a sua pergunta sem destinatário concreto ou conhecido, feita ao vazio e no vazio, na consciência de que nunca ninguém estaria ali, de que ali nunca haveria ninguém para vir ter com ela num tempo menos efémero, que a sua ruptura da noite teria de se fazer como até então, ao sabor das fomes repentinas e de encontros avulsos, de insatisfações permanentes e de aventuras sem compromisso, de fulgores precários e de breves epifanias, como as do fogo-de-artificio a enredarem-se no fio de Ariane interminável que ela assim desenrolava no seu próprio labirinto e nunca a nada a poderia prendê-la e nunca ninguém haveria de indicar qualquer espécie de caminho que lhe dissesse respeito.




Vasco Graça Moura

sábado, 22 de outubro de 2016



Desejava um silêncio perfeito. 
Por isso falo. 






Alejandra Pizarnik

pequeníssimos recados escritos 
à pressa 
amachucados nos dedos 





Al Berto

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Sou eu,


Sou eu, 

sou eu que não durmo
contigo nos sentidos



Eugénio de Andrade

Despedidas...........


É nas linhas das mãos que os deuses escrevem 
os mais belos romances. 

Nas nossas, porém, somente
elaboraram um divertimento, um esboço, um rascunho, 
nem sequer literatura.








Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 19 de outubro de 2016


comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspensos





Miriam Reyes
Um a um
esqueci os motivos
porque vim





José Tolentino Mendonça

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. 
E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios.
 Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. 
Vivo mais porque vivo maior.




- Bernardo Soares

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O que conta é o inferno da história única.


O que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. 
O que conta é o inferno da história única. 
Nada a substitui, nem uma segunda história.
 Nem a mentira.


Marguerite Duras

"Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles. 
O mundo te machuca. 
As pessoas te empurram nas filas, dentro dos ônibus, nas esquinas. 
Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada.
 Quando olho para você, quando olho para mim, não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo."



Caio Fernando Abreu

SangrO



Mais depressa estaria pronta a seguir-te do que a cuidar-te da sepultura, pois preferiria enterrar-me contigo a preparar-te a campa. 

Em ti teria perdido a vida, sem ti não poderia ... 






Carta de amor de Heloísa a Abelardo ...

segunda-feira, 17 de outubro de 2016


Nos dias nevoentos fecho as janelas, acendo a luz forte e deito-me no tapete. 
Leio ou penso. 
Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam pesadas, até ser impossível destruir o silêncio. 





Herberto Helder

Saudade de um beija-flor
Lembranças de um antigo amor
O dia amanheceu tão lindo
Eu durmo e acordo sorrindo




Flor e O Beija Flor



Marília Mendonça

domingo, 16 de outubro de 2016


A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peitO 








Paul Éluard

tão nu de ti como as árvores das estrelas





Pedro Sena-Lino

Mal consigo respirar.

- Tens um pouco de cinzas no coração, disse-me. 
Aquilo por que passamos nunca se consuma por completo. 

Um pouco de cinzas no coração não nos deixa respirar.







Pascal Quignard

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Apaga a luz quando entrares....


Apaga a luz quando entrares

e vem ver se em mim ainda se cheira o mar




Renata Correia Botelho

Eu não sou dessas mulheres
incapazes de amor e ternura. 
Eu sei o que é coragem e sangue,
embora odeie o sacrifício e me repugne 
a vaidade que nasce da violência. 
Quero ser mulher de um mercenário, 
de um poeta ou de um mártir, é igual.
Eu sei fitar os olhos dos homens, 
sei quem merece a minha ternura. 





Amalia Bautista

quinta-feira, 13 de outubro de 2016


"Eu passeio por tua estrada quando você não está, porque não quero mais vê-lo ou tocá-lo. Eu passeio por tua casa quando você não está, mas não vasculho tuas gavetas, teus segredos, a intimidade repousada no silêncio dos teus bolsos, dos armários: contemplo os móveis, os livros, os discos e tudo o que está exposto__só quero a experiência.

 Eu passeio por tuas coisas quando você não está, pra aprender com tua casa, tua estrada e o teu mundo a suportar a tua ausência."




Marla de Queiroz

quarta-feira, 12 de outubro de 2016


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.

[...]




Miguel Torga

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Me desmancho quando encosto em você, êh iêh êh...





me encaixo no teu cheiro

e ali me deixo inteiro 



eu amei te ver





Tiago Iorc



**não vou voltar tão cedo, mas vou voltar pq eu amei te ver...

eu amei te ver...

eu amei te ver...





eu amei te ver....




....

quarta-feira, 5 de outubro de 2016


e quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. 

só nua eu te podia ler. 

porque te recebia não em meus olhos, mas em todo o meu corpo, linha por linha, poro por poro







mia couto,

"(...)
 numa daquelas noites boas eu disse-lhe que era destes pequenos beijos e daqueles gemidos sussurros que se faziam os grandes amores e as grandes 
alegrias."



António Alçada Baptista

Hoje, sem qualquer pedido de explicação ao universo, guardo com ternura uma oração, que me abraça enquanto vos escrevo estas palavras: ‘somos aquilo que nos acontece’.

No mesmo tipo de amor e dignidade de quem a partilhou comigo de mãos vazias devolvo-as devagar ao mar, na lembrança de um diamante em bruto. 

E hoje, ao escrever estas linhas, transmuto as palavras, como uma miúda guardaria um tesouro dentro de um búzio de verão: ‘somos o que vivemos’.




Sancha Trindade

domingo, 2 de outubro de 2016


Não sei onde estás, se falas ou se apenas olhas o horizonte, que pode ser apenas o de uma parede de quarto. 

Mas sei que uma sombra se demora contigo, quando me pergunto onde estás: uma inquietação que atravessa o espaço entre mim e ti, e te rouba as certezas de hoje, como a mim me dá este poema.




Nuno Júdice

Somos sobreviventes. 
A vida que quisemos, não a tivemos. 
Aquela que temos, não a escolhemos. 
Veio-se-nos. 
Faltou-nos só uma vocação, essa para vivermos a única vida que realmente nos importava. 
Todas as outras permanecem para sempre marcadas por um selo de morte e insuficiência. 
O tempo que resta, passamo-lo a tentar digerir esse monstruoso fracasso, a evitar transformar-nos a nós próprios em monstros de ressentimento. 
Não, nós não queríamos ser humanos. 
E agora, não queremos outra coisa, à falta daquilo em que não fomos capazes de nos tornar.”




Bénédict Houart



Só a noite chegará atrasada à festa do teu corpo
no meu corpo. 
Da tua voz na minha voz. 
Das tuas mãos
nas minhas mãos. 
Da tua pele na minha pele.
E nem mesmo ela conseguirá aperceber-se de qual de nós é o sorriso que quase a ilumina. 
Porque as nossas bocas permanecerão
coladas.



Joaquim Pessoa,
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