sexta-feira, 30 de dezembro de 2016


A vida não foi feita para ser pouca e breve.

 E o mundo não foi feito para ter medida.





Mia Couto
[...]
Representa uma barreira de luz independente -
a pessoa: ilha emigrada, trabalho explosivo e negro.
Então o clima pensa, os centros saem, o lugar dificulta-se
com água.
[...]

Representa uma fotografia que se insurge: violenta, 
branca.




[herberto helder]

Minha alma tem pés descalços
e olhos brilhantes infantis.

Ela veste trapos imprestáveis,
tem uma corda cingida à cintura
e vive em busca de borboletas,
versos e passarinhos.

Alma, peço-te, agora:
Leva-me junto de ti!

Carrega-me em teus braços.
És infinitamente maior do que sou.

.

.

Nara Rúbia Ribeiro

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016


se calhar há na distância a confirmação
de que vamos acumulando vazios

não tanto pelo que resta
mas sobretudo pela maneira
como o castelo de cartas
parece vacilar

apenas isso um tremor de paredes vazias
num tempo que não sei nomear

não é dia de fechar janelas
o papel amarelece e descola

e no fim resta o que acontece nas pausas



maria sousa

“A fé, abençoada seja ela para todo sempre, além de arredar montanhas do caminho daqueles que do seu poder se beneficiam, é capaz de atrever-se às águas mais torrenciais e sair delas enxuta.”



José Saramago

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016


Que o Deus que brinca em mim convide para brincar o Deus que mora nas pessoas.

 Que eu tenha delicadeza para acolher aqueles que entrarem na roda e sabedoria para abençoar aqueles que dela se retirarem.



Ana Jácomo

terça-feira, 27 de dezembro de 2016


Sempre. Dormiram, acordaram, esgotaram-se. 
Vivem na escuridão, no vácuo. 
Têm mãos. 
Respiram sobriamente sobre as mãos.

Depois param.
Então criam a festa. 

As forças irrompem do fundo; fazem vacilar o fino e o precário equilíbrio da terra. 
Para lá da lei abolida, as coisas tornam-se visíveis, com uma intensidade, uma transparência anterior: sinais, vozes, tudo. 
Como se o mundo inteiro curasse uma ressaca no corpo de cada um, e essa límpida desordem deixasse o coração escorrido.

É a festa dos homens.





Herberto Helder

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016


depois de um certo tempo, você começa a amar as coisas que têm, e para de ressentir-se daquilo que nunca teve



Wiliiam Leal

lindoooooooooooooo


Tire o véu, Amor,
não se afoite
e veja que as estrelas
são aftas que ardem
no céu
da boca da noite.



J. Guedes



Quanto custa um sonho?
Alguma coisa ele sempre custa,
muitas vezes muitas coisas ele custa
outras vezes outros sonhos ele custa.
Não importa os percalços, os sacrifícios,
os espinhos enredos.
Não importa,
uma vez vivido,
o sonho está sempre num ótimo preço!

.



Elisa Lucinda,

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Nasçamos....


Que neste Natal a riqueza não seja material .

 Mas que seja de significado na alegria de nós termos as pessoas que amamos ao nosso lado e podermos dar a elas não o que a gente tem, mas o que somos.







Pe. Fábio de Melo

Mas levo comigo tudo
o que recuso.
Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.


Nuno Júdice

só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade





Ruy Belo


**E testemunham a falta dela (intimidade)....

terça-feira, 20 de dezembro de 2016



Somos a carne de um fruto atordoado. 

Somos o dia aparatoso

nas escadas, depois navios ancorados carregados de bruma.
Bebemos o sangue dos poentes como animais incrédulos
de morrer.

Quando tens frio, risco-me como fósforo na tua pele ondulada. 
E dá-se o acidente nas gavetas.


As tuas pernas afogam-se em poços de água, eu tenho os braços engessados numa parede violenta 
- porém beijamo-nos na boca lenta da madrugada.


O meu nome acordou povoado pelo teu nome.





Vasco Gato

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016


as minhas palavras exigem silêncio e espaços abandonados




Alejandra Pizarnik

Triste quando desejo e quando não. 

Triste quando com um corpo e quando não. 

Triste quando com o seu sorriso e quando não.






Alejandra Pizarnik

"Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. 
Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta.
 Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. 
Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a freqüência do seu riso mais gostoso. 
Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam.
 Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. 
Do pedaço de doçura que não foi maculado. 
Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. 
A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares.
 Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. 
Sobre o que gosta de fazer para se divertir. 
Conta se você reza antes de adormecer."



 Ana Jácomo.

domingo, 18 de dezembro de 2016


o dia não conseguiu chover: 

eu queria agora chorar todo o choro que o dia não chorou por ti. 

não consigo



Caio Fernando de Abreu

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016


"Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim

Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz."




Vanessa da Mata

nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



Alexandre O'Neill

todos foram saindo, de mansinho,
tão calados, 
que eu nem sei 
se fiquei mesmo só.




João Guimarães Rosa


pus a mão na boca para
amordaçar a dor, mas
era tão mais forte que
mesmo a mão gritou. 



Bénédicte Houart

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016


Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos



Ruy Belo

Não quero contar histórias, porque história é excremento do tempo;

 Queria dizer-lhes é que somos eternos, eu, Ofélia e os manacás.






 Adélia Prado

“Nunca esquecerei e agora lembro”




José Luís Peixoto

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016



Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. 

Milhares de garotinhos, e ninguém por perto - quer dizer, ninguém grande - a não ser eu. 

E eu fico na beirada de um precipício maluco. 

Sabe o quê que eu tenho de fazer? 

Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. 

Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. 

Só isso que eu ia fazer o dia todo. 

Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. 

Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer.



Salinger

terça-feira, 6 de dezembro de 2016


Entre a folha branca e o gume do olhar


a boca envelhece


Sobre a palavra 


a noite aproxima-se da chama


Assim se morre dizias tu 


Assim se morre dizia o vento acariciando a cintura 


Na porosa fronteira do silêncio 


a mão ilumina a terra inacabada






Eugénio de Andrade

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016


As palavras são como cheques bancários, têm que ter fundos, e os olhos entregam o que a boca silencia




Pedro Bial

domingo, 4 de dezembro de 2016


numa noite de audácia incomparável

passo a tratar-te por tu, e abraço com as pontas dos dedos

os nós das tuas mãos; 

no fresco calor condicionado

de um quarto onde a luz não dá para ler, recito

estrofes e mitos; 

beijo-te, não é? 

nada estava escrito,

nenhuma verdade comum aos planetas,

éramos só nós sem nenhum segredo,

vivos e completos, serenos, mortais.



António Franco Alexandre

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016


Hoje, apenas sinto o vento reacender feridas,

nada possuo,

nem sequer o sofrimento.



Al Berto

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


'Penso em ti como um desejo interrompido 


que se teceu na minha memória.


E sonho-te mais do que te recordo.


Seleciono. 
Invento-te um nome, um rosto. 


Reconstruo. 
Reconstruo-te.


Peça a peça.


Minuciosamente – real ou irreal,


- Assim te lembro.'


.





Amélia Pais]

terça-feira, 29 de novembro de 2016


29/11/2016


"Por mais que eu seja emotivo - e sou bastante - evito escrever quando estou muito mexido. Costumo dizer que futebol é metáfora da vida e talvez por isso esse lance com a Chapecoense me deixa tão triste. Porque, por mais que torçamos pra Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras, Santos e outros grandes times, na vida a gente é mesmo uma Chapecoense. A gente sonha, luta, batalha, joga fechadinho na defesa, aguenta pressão no trabalho, salva bola em cima da linha no último minuto e quer ser campeão de algo, vibrar com a felicidade, alçar vôos altos. A gente é Chapecoense na vida porque, por mais que algumas vezes queira e em outras se sinta impotente, está lá, sempre na peleja. Nem sempre com torcida a favor, às vezes com o estádio da vida lotado, tentando virar o jogo fora de casa, mas estamos lá, buscando nossa realização, nosso conto de fadas. A gente adotou a Chapecoense porque ela é gente da gente. Com essa queda, a gente vê como se importa com bobagem, como perde energia com coisas pequenas, inclusive por aqui. Como a gente se demora em questões que não geram amor. "Donde no puedas amar, no te demores". Já que vamos seguir na vida, é preciso ser mais Chapecoense. Se encontrar mais, sorrir mais, discordar quando for necessário, mas se respeitar mais. Cultivar os afetos, deixar os desafetos pra lá, nos livrar das âncoras e seguir com as velas. É preciso seguir, é preciso soprar. Vamo, vamo, Chape. Na metáfora dessa vida, jogo de futebol eterno, Chape somos nós."



Arthur Chrispin



http://espnfc.espn.uol.com.br/chapecoense/vamo-verdao/11902-o-que-a-chapecoense-fez-ontem-nao-tem-nome


domingo, 27 de novembro de 2016


Há destinos que são travessias: 
o meu, por exemplo:
 uma voz, de um silêncio a outro.



- Rui Nunes

sábado, 26 de novembro de 2016


Não creio ser um homem que saiba. 

Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim.

 Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.




Hermann Hesse

sexta-feira, 25 de novembro de 2016


(…) há a noite da tua pergunta,

há a noite de não te responder,

há a noite do medo dos nomes que há para a noite,

há no interior desta noite a esperança de uma noite anônima, isto é, de um silêncio e de um escuro que não se voltam para nós como uma acusação,

há um silêncio que me interroga e há todas as respostas inúteis,

há a tua morte na saliva que ficou nos meus lábios,

há a tua voz que se afastou,

ouvir um som que desconheça lábios, o do lume, por exemplo, o desta lareira com o seu quebra-fogo,e pela casa uma vacilação que a sustém, e no extremo a ilumina, nós estamos deitados no soalho, a tarde desce pela vereda, com o mar recortado de trepadeiras, os coelhos pararam junto à sebe, de onde se ergue o vazio entre muros e troncos.

Estamos no medo, na paz do medo, com o sol a crescer para o poente (…)



- Rui Nunes

quinta-feira, 24 de novembro de 2016


pernoitas em mim 
e se por acaso te toco a memória… amas 
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos 
escuto o rumor da terra molhada 
a fala queimada das estrelas

é noite ainda 
o corpo ausente instala-se vagarosamente 
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras 
e nenhum lume irrompe para beberes




Al Berto

deixa, por favor, ao meu corpo
o direito absoluto aos teus vinte anos
ao primeiro beijo, ao primeiro cigarro
ao indeciso movimento dos teus dedos
desabotoando a minha blusa.



Alice Vieira

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


...faz um tempo eu quis, fazer uma canção, pra você viver mais...



Pato Fú

terça-feira, 22 de novembro de 2016


Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias 
(…)




Ruy Belo

(...)

e por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes

ah por vezes

num segundo se envolam tantos anos.





David Mourão-Ferreira

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...