domingo, 29 de novembro de 2015


"Quando se tem sensibilidade na alma, todas as rupturas são dolorosas."


António Almeida

sábado, 28 de novembro de 2015


venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.


António Franco Alexandre

o mundo está perdido


Fôssemos merecidos de água, de chão, de rãs, de árvores, de brisas e de garças!

Nossas palavras não tinham lugar marcado. 
A gente andava atoamente em nossas origens.

Só as pedras sabiam o formato do silêncio. 
A gente não queria significar, mas só cantar.

A gente só queria demais era mudar as feições da natureza. 
Tipo assim: Hoje eu vi um lagarto lamber as pernas da manhã. 
Ou tipo assim: Nós vimos uma formiga frondosa ajoelhada na pedra.

Aliás, depois de grandes a gente viu que o cu de uma formiga é mais importante para a humanidade do que a Bomba Atômica.




Manoel de Barros.

domingo, 22 de novembro de 2015

Assimilar-te...


Assimilar-te: ser perfume na tua pele.


Albano Martins

Uma alma cheia de luz, pronta pra explodir fogos de artifício numa noite de lua cheia.
 A fé pendurada no pescoço. 
Fita do Bonfim no tornozelo. 
Barra da saia carregada de esperanças, nos olhos a cor da paz tão esperada. 
Estende os braços pra sentir vento.
 Um abraço de esculpir sorrisos. 
Um sentimento faz claridade nos olhos até a pupila parecer arco-íris.
 Suspiro. 
É mudança. 
Muitas, vês? 
Já escolhi o destino...




Caio F
Jamais saberei
os detalhes infinitos
do teu corpo nu
.

José Luís Almeida

domingo, 15 de novembro de 2015


"Aqui, junto a janela, o ar é mais calmo.

Estrelas, estrelas, rezo."




Clarice Lispector

sábado, 14 de novembro de 2015

sábado, 7 de novembro de 2015


Mate os meus demônios e meus anjos podem morrer também.” 




Tennessee Williams

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015


“Comecei a amar-te no dia em que te abandonei.

Foram as palavras dele quando, dez anos depois, a encontrou por mero acaso no café. Ela sorriu, disse-lhe “olá, amo-te” mas os lábios só disseram “olá, está tudo bem?”. Ficaram horas a conversar, até que ele, nestas coisas era sempre ele a perder a vergonha por mais vergonha que tivesse naquilo que tinha feito (como é que fui deixar-te? como fui tão imbecil ao ponto de não perceber que estava em ti tudo o que queria?), lhe disse com toda a naturalidade do mundo que queria levá-la para a cama. Ela primeiro pensou em esbofeteá-lo e depois amá-lo a tarde toda e a noite toda, de seguida pensou em fugir dali e depois amá-lo a tarde toda e a noite toda, e finalmente resolveu não dizer nada e, lentamente, a esconder as lágrimas por dentro dos olhos, abandonou-o da mesma maneira que ele a abandonara uma década antes. Não era uma vingança nem sequer um castigo – apenas percebeu que estava tão perdida dentro do que sentia que tinha de ir para longe dali para ir para dentro de si. Pensou que provavelmente foi isso o que lhe aconteceu naquele dia longínquo em que a deixara, sozinha e esparramada de dor, no chão, para nunca mais voltar.

De tudo o que amo és tu o que mais me apaixona.

Foram as palavras dela, poucos minutos depois, quando ele, teimoso, a seguiu até ao fundo da rua em hora de ponta. Estavam frente a frente, toda a gente a passar sem perceber que ali se decidia o futuro do mundo. Ele disse: “casei-me com outra para te poder amar em paz”. Ela disse: “casei-me com outro para que houvesse um ruído que te calasse em mim”. Na verdade nem um nem outro disseram nada disso porque nem um nem outro eram poetas. Mas o que as palavras de um (“amo-te como um louco”) e as palavras de outro (“amo-te como uma louca”) disseram foi isso mesmo. A rua parou, então, diante do abraço deles.”






[Pedro Chagas Freitas]

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...