terça-feira, 29 de dezembro de 2015


Inverter-te a química.

Da intensidade e nela repousar o pensamento...

lamber-te o fulgor em que me abismo.




Maria Gabriela Llansol

domingo, 27 de dezembro de 2015

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015


Estão aqui 37 graus.
 É um corpo.
 E ninguém se aproxima senão para recuar. 
Devorar. 
Ou ficar.




Vasco Gato

Natal, Natal (diziam)....


Natal, Natal (diziam).

E acontecia.

Como se fosse na palavra a rosa brava acontecia.

 E era Dezembro que floria.

Era um vulcão. 

E no teu corpo a flor e a lava.

E era na lava a rosa e a palavra.

Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.




Manuel Alegre

terça-feira, 22 de dezembro de 2015



"Perdoe...
Não importa quem feriu primeiro. 
O que importa é que você vá lá e construa a ponte."



Max Lucado

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015


Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.




Ramón Gómez de la Serna

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

sexta-feira


Tranquila Sexta-feira

abandonada Sexta-feira

Sexta-feira cada vez mais triste como ruelas antigas

Sexta-feira de indolentes pensamentos indispostos

Sexta-feira de sinuosos e nefastos espreguiçamentos

Sexta-feira de nenhuma expectativa

Sexta-feira de rendição.

Casa vazia

casa solitária

casa trancada contra a investida da juventude

casa da escuridão e ânsias de sol

casa de solidão, augúrio e indecisão

casa de cortinas, livros, guarda-louça, fotografias.

Ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena

como uma corrente profunda

através do coração dessas silenciosas, abandonadas Sextas-feiras

através do coração dessas tristes casas vazias

ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena.






Forough Farrokhzad

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015


Sou rainha de todos os meus pecados esquecidos. 
Em tempos fui bonita. 
Agora sou eu própria.



Anne Sexton

domingo, 6 de dezembro de 2015


A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão



Daniel Faria

Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância.




Valter Hugo Mãe in "O rosto"

domingo, 29 de novembro de 2015


"Quando se tem sensibilidade na alma, todas as rupturas são dolorosas."


António Almeida

sábado, 28 de novembro de 2015


venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.


António Franco Alexandre

o mundo está perdido


Fôssemos merecidos de água, de chão, de rãs, de árvores, de brisas e de garças!

Nossas palavras não tinham lugar marcado. 
A gente andava atoamente em nossas origens.

Só as pedras sabiam o formato do silêncio. 
A gente não queria significar, mas só cantar.

A gente só queria demais era mudar as feições da natureza. 
Tipo assim: Hoje eu vi um lagarto lamber as pernas da manhã. 
Ou tipo assim: Nós vimos uma formiga frondosa ajoelhada na pedra.

Aliás, depois de grandes a gente viu que o cu de uma formiga é mais importante para a humanidade do que a Bomba Atômica.




Manoel de Barros.

domingo, 22 de novembro de 2015

Assimilar-te...


Assimilar-te: ser perfume na tua pele.


Albano Martins

Uma alma cheia de luz, pronta pra explodir fogos de artifício numa noite de lua cheia.
 A fé pendurada no pescoço. 
Fita do Bonfim no tornozelo. 
Barra da saia carregada de esperanças, nos olhos a cor da paz tão esperada. 
Estende os braços pra sentir vento.
 Um abraço de esculpir sorrisos. 
Um sentimento faz claridade nos olhos até a pupila parecer arco-íris.
 Suspiro. 
É mudança. 
Muitas, vês? 
Já escolhi o destino...




Caio F
Jamais saberei
os detalhes infinitos
do teu corpo nu
.

José Luís Almeida

domingo, 15 de novembro de 2015


"Aqui, junto a janela, o ar é mais calmo.

Estrelas, estrelas, rezo."




Clarice Lispector

sábado, 14 de novembro de 2015

sábado, 7 de novembro de 2015


Mate os meus demônios e meus anjos podem morrer também.” 




Tennessee Williams

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015


“Comecei a amar-te no dia em que te abandonei.

Foram as palavras dele quando, dez anos depois, a encontrou por mero acaso no café. Ela sorriu, disse-lhe “olá, amo-te” mas os lábios só disseram “olá, está tudo bem?”. Ficaram horas a conversar, até que ele, nestas coisas era sempre ele a perder a vergonha por mais vergonha que tivesse naquilo que tinha feito (como é que fui deixar-te? como fui tão imbecil ao ponto de não perceber que estava em ti tudo o que queria?), lhe disse com toda a naturalidade do mundo que queria levá-la para a cama. Ela primeiro pensou em esbofeteá-lo e depois amá-lo a tarde toda e a noite toda, de seguida pensou em fugir dali e depois amá-lo a tarde toda e a noite toda, e finalmente resolveu não dizer nada e, lentamente, a esconder as lágrimas por dentro dos olhos, abandonou-o da mesma maneira que ele a abandonara uma década antes. Não era uma vingança nem sequer um castigo – apenas percebeu que estava tão perdida dentro do que sentia que tinha de ir para longe dali para ir para dentro de si. Pensou que provavelmente foi isso o que lhe aconteceu naquele dia longínquo em que a deixara, sozinha e esparramada de dor, no chão, para nunca mais voltar.

De tudo o que amo és tu o que mais me apaixona.

Foram as palavras dela, poucos minutos depois, quando ele, teimoso, a seguiu até ao fundo da rua em hora de ponta. Estavam frente a frente, toda a gente a passar sem perceber que ali se decidia o futuro do mundo. Ele disse: “casei-me com outra para te poder amar em paz”. Ela disse: “casei-me com outro para que houvesse um ruído que te calasse em mim”. Na verdade nem um nem outro disseram nada disso porque nem um nem outro eram poetas. Mas o que as palavras de um (“amo-te como um louco”) e as palavras de outro (“amo-te como uma louca”) disseram foi isso mesmo. A rua parou, então, diante do abraço deles.”






[Pedro Chagas Freitas]

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


"Sentado à beira do caminho, o homem cansado ficou quieto, espiando a vida que passava"





CaioFAbreu

domingo, 25 de outubro de 2015


"Nada a esperar.
 Nada a buscar.
 Nenhum lugar onde ir. 
Eu me sinto sentada sob a sombra de uma árvore generosa, numa tarde azul sem pressa, os pássaros bordando o céu com o seu balé harmonioso. 
O meu coração é pleno, nenhuma fome.
 
Plenitude não é extensão nem permanência: é quando a vida cabe no instante presente, sem aperto, e a gente desfruta o conforto de não sentir falta de nada."


Ana Jácomo

Só há uma coisa na vida que precisamos aprender, e ninguém ensina isso nas escolas.
 A capacidade de suportar.


— A cidade do Sol.

sábado, 24 de outubro de 2015


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.



Miguel Torga

Eu fiz de tudo pra você perceber que era eu... 




Los Hermanos

Uma 'dose' sem gelo, por favor!


Dá-me a tua melhor faca para cortarmos isto em dois e amanhã esquecer.


 Linda Martini

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

O cheiro de terra. 
O cheiro de chuva. 
O cheiro da infância. 
O cheiro de quem se gosta. 
O acorde daquela risada que acorda tudo na gente. 
Essas coisas. 
Outras coisas. 
Todas, simples assim.



Ana Jácomo

Se eu posso te dar um conselho, eis aqui: 
Não mendigue atenção de quem quer que seja. 
Não se esforce para compartilhar minutos com quem está mais interessado em coisas que não te incluem. 
Não prolongue a conversa apenas para ter o outro por perto, quando você perceber que precisa se esforçar bastante para que o monólogo vire um diálogo.
 Esqueça. 
Prefira a sua solidão genuína à pseudo presença de qualquer pessoa. 
Ainda digo mais: Perceba que existem pessoas que curtem dividir a atenção contigo sem que você precise desprender esforço algum. 
Aproveite o que te dão de livre e espontânea vontade. Dispense o que te dão por força do hábito ou por conveniência. 
Esqueça o que não querem te dar. 
Cada um dá o que pode.



- Mario Calfat David

sábado, 17 de outubro de 2015


Esquecemos facilmente os nossos pecados quando só nós próprios os sabemos,



François La Rochefoucauld

sexta-feira, 16 de outubro de 2015


Histórias de sempre, 

Verdades de nunca.



Jean Cocteau

E o incitava com picanterias, jogos de apimentar o nervo e arrepiar as carnes.



Mia Couto
Minha relação com a senhora dona Vida, de muitos anos para cá, tem sido frontal, direta e solitária.



Caio F. Abreu


terça-feira, 13 de outubro de 2015


Não tinhas
nome. 
Existias
como um eco
do silêncio. 
Eras
talvez
uma pergunta
do vento.


Albano Martins

segunda-feira, 12 de outubro de 2015



reparaste como o outono este ano veio por outro lado, como se fosse pelo lado de dentro? 





Manuel António Pina
(...) 
Que as pedras do meu caminho
Meus pés suportem pisar
Mesmo ferido de espinhos me ajude a passar
Se ficaram mágoas em mim
Mãe tira do meu coração
E aqueles que eu fiz sofrer peço perdão
Se eu curvar meu corpo na dor
Me alivia o peso da cruz
Interceda por mim minha mãe junto a Jesus
Nossa Senhora me de a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida do meu destino
Do meu caminho
Cuida de mim


(...)


Pobres pecadores oh mãe
Tão necessitados de vós
Santa Mãe de Deus tem piedade de nós


De joelhos aos vossos pés
Estendei a nós vossas mãos
Rogai por todos nós vossos filhos meus irmãos.


(...)




Nossa Senhora - Roberto Carlos

domingo, 11 de outubro de 2015


Não é necessário melhorar a aparência, adquirir muita cultura, aumentar o salto do sapato, levantar mais o nariz.

Precisamos diminuir o barulho, caminhar mais devagar, prestar atenção em quem chega, abaixar a cabeça e colocar a humildade pra funcionar.

Somos grandes, quando somos pequenos.



Ita Portugal

sexta-feira, 2 de outubro de 2015


é difícil enumerar noites quando são
um nervo exposto da memória

se quero falar sobre as variações da insônia
sabes o que te posso contar?

à espera de resposta digo-te que
gosto de noites curtas

e que ao estar sozinha vão nascendo pássaros
nos regressos que desenho para portas por abrir




maria sousa

domingo, 27 de setembro de 2015


A estrutura da bolha de sabão, compreende? 
Não compreendia. 
Não tinha importância.
 Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. 
Uma de cada vez. 
Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca.



Lygia Fagundes Telles

"A noite - enorme,
 tudo dorme, 
menos teu nome".


Paulo Leminski

"A fé é um exercício pra vida inteira. 
Muitas e muitas vezes, eu me distancio incrivelmente dela, achando que posso resolver tudo sozinha. 
Não é raro nessas ocasiões, na verdade é bastante comum, eu me atrapalhar toda num turbilhão de emoções que me drenam a energia e o sorriso. 
Mas, toda vez que consigo acessá-la, de novo, tudo se modifica e se amplia na minha paisagem interna. 
(…) Então, faço o que me cabe e entrego, mesmo quando, por força do hábito, eu ainda dê uma piscadinha pra Deus e lhe diga: 
“Tomara que as nossas vontades coincidam”. 
Faço o que me cabe e confio que aquilo que acontecer, seja lá o que for, com certeza será o melhor, mesmo que algumas vezes, de cara, eu não consiga entender."


— Ana Jácomo.

sábado, 26 de setembro de 2015


"Dentro de mim mora um grito
De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar."


Sylvia Plath

[…] 
A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.
Outros cantadores, quando atuam em público, se trajam de enfeites e 'reluzências'.
 Mas, em meu caso, cantar é coisa tão maior que me entrego assim pequenininha. 
Dessa maneira, menos que mínima, me torno sombra, desenhável segundo tonalidades da música.
Cantar, dizem, é um afastamento da morte.
 A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida.
 Dizem, mas, para mim, a voz serve-me para outra finalidade: cantando eu convoco um certo homem.
 Era um apanhador de pérolas, vasculhador de maresias.
 Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento. 
O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.
Amei esse peroleiro tanto até dele perder memória.
 Lembro apenas de quanto estive viva. 
Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulado de felicidade. 
Só esse homem servia meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam. 
Contudo estou fadada apenas para instantes. 
Nunca provei felicidade que não fosse em taça que, logo após o lábio, se estilhaça. 
Sempre aspirei ser árvore. 
Da árvore serei apenas luar, a breve crença de claridade.[…]

Mia Couto

sexta-feira, 18 de setembro de 2015


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: 
Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — 
O verbo tem que pegar delírio.



Manoel de Barros

terça-feira, 15 de setembro de 2015


é difícil enumerar noites quando são
um nervo exposto da memória


se quero falar sobre as variações da insonia
sabes o que te posso contar?


à espera de resposta digo-te que
gosto de noites curtas


e que ao estar sozinha vão nascendo pássaros
nos regressos que desenho para portas por abrir




maria sousa

domingo, 13 de setembro de 2015


A boca

onde o fogo

de um verão

muito antigo

cintila.

O que pode uma boca

esperar

senão outra boca?




Eugénio de Andrade

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...